A embaixada da França no Brasil apoia a formação de meninas no meio rural

Após o edital publicado em 2018, onde a Embaixada da França financiou uma iniciativa de apoio à formação de meninas no meio rural, o mesmo está sendo implementado em 2019 pela organização SOF.

JPEGApresentam este projeto as Sras. Miriam Nobre, coordenadora de programas dessa organização, e Isabelle Hillenkamp, economista social, encarregada de pesquisa no Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento.

Principais ações do projeto

Este projeto visa contribuir para que mulheres jovens rurais formulem projetos de vida que contemplem seu envolvimento na produção agroecológica e agroflorestal, dando continuidade às iniciativas de desenvolvimento local sustentável no município de Barra do Turvo, Vale do Ribeira, São Paulo. Este objetivo se materializa em oficinas de comunicação e viagem de intercâmbio. Nas oficinas, as jovens produzem materiais que descrevem os produtos comercializados por suas mães e outros familiares em redes de comercialização solidárias. Expõem, também, as formas de produção próprias da sociobiodiversidade local. A viagem lhes permitirá conhecer cursos de nível superior de agroecologia e educação no campo que conectam os conhecimentos populares e tradicionais com os científicos.

Pesquisa-ação no projeto

A pesquisa faz parte do conjunto de ações que visam ampliar as possibilidades das jovens formularem projetos de vida inseridos nas iniciativas de desenvolvimento sustentável das suas comunidades. Consiste na produção de conhecimentos, por meio de instrumentos como discussões em grupo, observações, entrevistas, questionários ou coleta de documentação.

Em primeiro lugar, a pesquisa proporcionou uma melhor compreensão da situação das jovens nas suas comunidades e identificou os riscos associados a este momento-chave das suas trajetórias de vida. Com efeito, é a partir da adolescência que as trajetórias de vida são decididas, seja mantendo a ligação com a comunidade de origem e contribuindo para a sua organização política e atividade econômica, seja indo viver nas periferias urbanas, onde correm riscos associados com formas precárias de trabalho doméstico e vários tipos de violência.

A “pesquisa- ação” sistematiza os conhecimentos e os compartilha em curto espaço de tempo com os sujeitos envolvidos. Assim, permite adequar à realidade e aos desejos locais os conteúdos das oficinas e o roteiro da viagem de intercâmbio, bem como do conjunto das ações realizadas pela SOF junto a mulheres rurais na Barra do Turvo.
A pesquisa também produz conhecimentos para o debate acadêmico e político.

Mudança social

Desde 2015, a SOF vem atuando com assistência técnica e extensão rural de base agroecológica junto a mulheres agricultoras familiares e quilombolas na Barra do Turvo. Ao longo deste tempo, percebemos que as mulheres com maior envolvimento nestas atividades têm, em sua maioria, 30 a 55 anos e são pessoas que se preocupam com a continuidade dos modos de vida de suas comunidades. Mulheres jovens – em geral as filhas destas agricultoras – foram se aproximando aos poucos. Entretanto, para muitas delas, as perspectivas de permanência no campo e nas suas comunidades eram e ainda são muito incertas. Esta incerteza fez com que, inicialmente, poucas delas se conectassem com a agroecologia e com o trabalho desenvolvido na região.

Num primeiro momento, duas jovens de um bairro rural e duas jovens de um quilombo se envolveram participando das atividades de formação e registrando os destinos da produção de suas mães e avós na Caderneta Agroecológica – um instrumento destinado a valorizar a produção agrícola das mulheres.

Por meio do atual projeto, tem sido possível formar um grupo maior, com a participação de 20 mulheres jovens e 5 homens jovens, incluindo um bairro rural onde as condições de vida são ainda mais precárias devido ao pouco acesso a terra. Fortalecidas por este novo coletivo, as jovens assumiram maior papel na comercialização solidária. Sistematizam as ofertas e demandas em programas de informática; expressaram suas demandas para a formação, incluindo reflexões sobre corpo e sexualidade; ampliaram o diálogo com suas parentas adultas ao resgatar os conhecimentos que elas detêm em sua profissão de agricultoras.

Aos poucos, é problematizada a percepção de que a cidade sempre é melhor do que o campo e significa ascensão social. As jovens vão percebendo que, juntas, podem melhorar as condições de vida em suas comunidades. Elas também passam a compreender melhor que o trabalho na agricultura envolve conhecimentos complexos que merecem ser valorizados.

publié le 28/03/2019

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