CICLO MUTAÇÕES: DISSONÂNCIAS DO PROGRESSO - Conferências de filosofia, 16 - 19/10/2017

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Embaixada da França – 19h

Abertura - 16 I OUT - Conferência : « O fim do progresso »

17 I OUT - Céline Spector*

Civilização e desrazão, Ambivalências das Luzes

18 I OUT - Charles Girard*

Progresso e democracia

19 I OUT - Guilherme Wisnick

Não Lugar, cidade genérica, paisagem transgênica

Conferência em francês com tradução simultânea - Entrada franca

Embaixada da França
Espaço Le Corbusier,
SES . Av. das Nações, Lote 04, Quadra 801
www.ambafrance-br.org / tel: (61)3222-3999

Dissonâncias do progresso

Adauto Novaes, curador do ciclo

O que é progresso? Para alguns teóricos, apenas uma palavra que não passa de um slogan, um clichê ou, no máximo um mito; pode ser também uma crença, jamais um conceito. Para ganhar estatuto de “conceito” universal, o “progresso” procura refúgio em outras palavras em busca de legitimidade, e assim passar de termo relativo a sentido absoluto: progresso e democracia, progresso e liberdade, progresso e desenvolvimento. Pior, até mesmo ações de caráter belicista recorrem à idéia de guerra como movimento indispensável para um futuro de progresso radioso.

Filósofos brasileiros e franceses reúnem-se, mais uma vez, no Rio, em Belo Horizonte e Brasília em torno do conceito de Mutações, desta vez para discutir as dissonâncias do progresso.

Mas, afinal, o que legitima o progresso hoje?

A impressionante herança deixada pelas inúmeras formas do progresso da ciência e da técnica é incontestável: o mundo ganhou, mas o mundo perdeu! Transformação radical das ideias de espaço e tempo, avanços na medicina e na biologia que nos preservam de muitos males – progresso com inegáveis e perenes benefícios para a humanidade - mas também, em contrapartida, um progresso que cria rigor, velocidade, precisão da relação do homem com o meio físico, desaparecimento do vago e do lento, hábitos dominados por métodos positivos governados pelas máquinas, modo científico de existência ao qual “os espíritos se acostumam rapidamente, ainda que insensivelmente”, enquanto as relações do homem com o homem permanecem, como observa o poeta e filósofo Paul Valéry, “dominados por um empirismo detestável que evidencia até mesmo, em diversos pontos, uma sensível regressão”.

Pedro Duarte

Rememorava a queda lenta do burro, expelido de toda a parte pelo vapor, como o vapor o há de ser pelo balão, e o balão pela eletricidade, e a eletricidade por uma força nova, que levará de vez este grande trem do mundo até a estação terminal.

Machado de Assis

Não foi desde o começo da humanidade e nem mesmo do Ocidente que se pensou em progresso. Os gregos, confiantes no tempo cíclico da repetição ou na ausência de tempo da eternidade, desconheciam-no. Nem mesmo o Cristianismo, que já concebia a linearidade temporal na Terra, imaginou algo como a melhoria progressiva da humanidade. Foi só na modernidade tardia, já no final do século 18, que se começou a elaborar a ideia de uma história com um fim que seria atingido através de sucessivas mudanças no progresso. Kant, Hegel e Marx foram os principais filósofos responsáveis por essa ideia, que projetava a realização moral, espiritual ou social: um Estado Cosmopolita, um Estado de Liberdade e um Comunismo sem diferenças de classes. Em suma, todo progresso teria um fim, tanto no sentido de finalidade quanto de término. Todo o esforço e o sofrimento históricos ganhariam significado nesse futuro fim.

Hoje, vive-se uma mutação decisiva no sentido desse progresso. Ideologicamente, ele permanece justificando – como no século 19 – o trabalho histórico da humanidade, mas já não acena agora – no século 21 – com nenhum fim. O século 20 assistiu à destituição do fim a que se destinava o progresso. Num forte comentário sobre isso, o crítico Walter Benjamin afirmou que “onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos”, agora há “uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”. Diante do Nazismo e da Segunda Guerra Mundial, era a destruição o resultado do progresso ao longo do século 20, e não mais a construção prometida pelo século 19 e suas revoluções. Os sonhos libertários que acompanhariam o progresso transformaram-se nos pesadelos sem fim do planejamento racional totalitário das sociedades.

O movimento da história tornou-se, assim, autônomo, sem fim que o oriente ou dote-o de sentido. Nunca se produziu tanto. Quase ninguém entende por quê. Resta o assédio de um movimento incessante, justamente porque já não há mais um fim: nem finalidade, nem término. O filósofo Martin Heidegger deu a esse novo momento histórico o nome de “mundo da técnica”. Não seria o caso de, através desse diagnóstico, apontar sociologicamente a abundância de máquinas entre nós, e sim um horizonte de compreensão do ser de tudo aquilo que é, para o qual nada tem valor em si ou serve de meio para a construção de um fim, sendo mera parte de uma engrenagem que se interessa exclusivamente por sua própria manutenção. O fim do progresso, agora, é o progresso sem fim.

Pedro Duarte é doutor em filosofia pela PUC-Rio, de onde é professor na graduação, pós-graduação e especialização em Arte e Filosofia. Foi professor visitante nas universidades de Brown (EUA) e Södertörns (Suécia). É autor dos livros Estio do tempo: Romantismo e estética moderna e A palavra modernista: vanguarda e manifesto. Prepara Tropicália, para a coleção O livro do disco. Publicou capítulos em livros e artigos em periódicos acadêmicos e veículos da mídia. Desenvolve pesquisas voltadas para filosofia contemporânea, estética, cultura brasileira e história da filosofia.

Não-lugar, cidade genérica, paisagem transgênica

Guilherme Wisnik, USP Arquitetura

Na segunda metade do século 19, com a grande “descoberta do urbano” na Paris dos impressionistas e de Baudelaire, surgiu o grande caldeirão onde se fermentava a modernidade, num ambiente de excitação, libertação, alteridade e contradição. Vive-se, hoje, o polo oposto a isso. Eis aí uma sinistra caracterização dos resultados urbanos do que se imaginou ser o progresso há tempos. O que fazer diante dessa realidade decaída?

Civilização e desrazão: a ambivalência das Luzes

Céline Spector, Universidade Sorbonne Paris

Mesmo que integre o movimento iluminista, pode-se considerar Jean-Jacques Rousseau inimigo das Luzes ou crítico da modernidade, já que ele visa o valor mesmo da “civilização” cujo preço deve ser avaliado. Mas, longe de ser marginal nessa análise, Rousseau revela na verdade uma das tensões constitutivas da razão das Luzes, de que reencontraremos vestígios no “Discurso preliminar” da Encyclopédie.

Progresso e democracia

Charles Girard, Universidade Lyon 3 (França)

Se há membros das elites políticas e econômicas que questionam a livre participação social em nome da complexidade crescente das questões de governança, há defensores da igualdade de competência entre indivíduos, afastando assim a ideia de progresso necessário ao povo. Para avaliar esses discursos e, com isso, os possíveis futuros das sociedades democráticas, cumpre reconsiderar a relação delas com o progresso.

Site: www.mutacoes.com.br

publié le 12/10/2017

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