Entrega da Medalha "Chevalier dans l’Ordre des Arts et des Lettres" à Gisèle Santoro - 23 de novembro de 2017

Senhoras, Senhores,
Caros amigos,

Estamos reunidos esta noite para homenagear uma grande artista, um dos grandes nomes da dança no Brasil, a senhora Gisèle Santoro.

A senhora acredita em predestinação? A senhora deve achar minha pergunta esquisita, mas, ao falar de sua carreira, como não se perguntar se seus pais, quando escolheram batizá-la com o nome da mais célebre heroína, do mais célebre balé romântico – ainda por cima francês – de certa forma não influenciaram seu destino?

De qualquer forma, podemos imaginar que Terpsichore, a musa da dança, vigiava seu berço. A dança, uma arte à qual a senhora iria dedicar toda sua vida.

Se foi no Rio, cidade em que a senhora nasceu e recebeu formação, na Escola de Dança Clássica do Teatro Municipal, sua brilhante carreira está intimamente ligada à cidade de Brasília.

A senhora foi, sem dúvida, marcada para sempre pela sua primeira visita à Brasília, quando veio dançar no terraço do Congresso Nacional, durante as festas de inauguração da nova capital.

Podemos facilmente imaginar a emoção da jovem bailarina, numa de suas primeiras apresentações públicas, convidada a dançar num cenário tão grandioso, numa cidade em grande parte ainda em construção, que carregava a esperança de toda uma nação.

A senhora voltou à Brasília dois anos depois, para integrar a Fundação Brasileira de Balé. E aí, novo impacto, mas desta vez não por causa da arquitetura, e sim sentimental: a senhora encontrou-se com Claudio Santoro, o músico famoso, maestro e compositor que veio a ser seu esposo alguns anos mais tarde.

Após dez anos de exílio compartilhado, decidiram se instalar em Brasília, desejosos, como a senhora disse, de acompanhar o desenvolvimento desta cidade, considerada como um de seus filhos.

Desde então, a senhora nunca mais parou de colocar seu imenso talento e sua energia transbordante a serviço do desenvolvimento da dança e da cultura. É impossível enumerar tudo que a senhora criou e desenvolveu em Brasília.

Eu me contentarei em mencionar a Academia e o Balé que a senhora fundou e que levam seu nome, o Balé de Brasília que a senhora ainda dirige ou o Seminário Internacional de Dança de Brasília, que a senhora organiza há quase trinta (30) anos.

Por meio das instituições ou manifestações pelas quais a senhora é responsável, milhares de jovens brasilienses se formaram em dança ou puderam se aperfeiçoar no exterior.

Paralelamente a esta intensa atividade de formação, a senhora prosseguiu, com a mesma paixão, seu próprio trabalho artístico enquanto coreógrafa e maître de ballet.

Por ter dado tudo a esta cidade, devemos acreditar que a senhora foi tomada de um amor por ela verdadeiramente maternal. Os jornalistas de Brasília não se enganaram quando, por duas vezes, lhe atribuíram o título de « Mãe Alvorada », distinguindo as mulheres mais representativas da capital. Não é surpresa que o Governo do Distrito Federal, em dois mil e quinze (2015), tenha lhe outorgado o título de Cidadã Honorária do Distrito Federal.

Mas foi muito além da capital federal que seu talento de coreógrafa e pedagoga foi reconhecido. Primeiro no Brasil, o que lhe valeu, em dois mil e cinco (2005), ser distinguida pelo Ministério da Cultura como uma das cinco mulheres brasileiras culturalmente mais influentes.

Em seguida no exterior, seja nos Estados Unidos, na Ásia ou na Europa, onde a senhora foi durante estas últimas décadas, uma incansável e brilhante embaixadora da dança brasileira.

Sem contar os grandes palcos internacionais que lhe convidaram como maître de ballet, bem como os mais prestigiados concursos do mundo, que lhe convidaram para fazer parte de seus júris.

A França sempre foi para a senhora um lugar especial. Uma predileção que a senhora compartilhava com seu falecido marido que, devo lembrar, foi aluno de Nadia Boulanger e se apresentou várias vezes em Paris, regendo a Orquestra Filarmônica da Radio France.

A não ser que este amor pela França tenha sido herdado de seus antepassados, os Saint-Brisson, família francesa nobre e antiga, de onde, me disseram, a senhora descende.

Seja como for, a senhora sempre manteve com nosso país uma relação privilegiada, seja por ter apresentado por lá diversas de suas criações coreográficas, seja por ter trazido ao Brasil dezenas de coreógrafos, bailarinos e professores franceses.

« A dança », dizia Paul Valéry, « é uma arte fundamental, como sua universalidade, sua antiguidade imemorável, sua utilização em situações solenes, as ideias e debates que ela desde sempre provocou, o revelam ou provam ».

Cara Senhora, por ter promovido esta arte imemorável junto a tantas gerações de jovens brasileiros, por ter feito brilhar esta arte universal pelo mundo e, graças a ela, ter estabelecido laços de uma amizade sólida e fiel entre nossos países, a senhora merece, mais do que ninguém, que a França lhe renda homenagem.

publié le 27/11/2017

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