Pronunciamento do Presidente da República francesa aos Franceses (24/08/19)

Cúpula do G7 – Biarritz

Emmanuel Macron

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Meus caros compatriotas, eu gostaria de me dirigir diretamente a vocês, nesse sábado ao meio-dia, poucas horas antes do inicio do G7, aqui em Biarritz.

Dentro de algumas horas, receberei, neste exato local, diante da cidade de Biarritz, os chefes de Estado e do governo dos Estados Unidos da América, do Canadá, do Japão, da Alemanha, da Itália e do Reino-Unido, e as instituições europeias. Esses sete grandes países industrializados, essas sete potências econômicas e militares que nós formamos, compartilham os mesmos valores democráticos, e é por isso que há 44 anos, uma vez por ano, nós nos reunimos para trocar ideias sobre questões mundiais importantes e tentarmos nos coordenar. Esta reunião é útil e importante, pois sem ela cada um de nós seguiria o seu caminho, e algumas vezes poderíamos nos dividir, entretanto eu acredito que é esperado de nós que saibamos nos coordenar e agir juntos, de modo útil.

Quais são, aos meus olhos, os desafios deste G7, e no fundo, o que é que eu vou defender em nome de vocês, nesses dois dias?

Primeiramente, eu acredito realmente que o que vocês esperam de nós é que possamos garantir a estabilidade e a segurança, e proteger a paz no mundo. Portanto, vamos conversar sobre os grandes conflitos e as situações mais tensas: o Irã, a Síria, a Líbia, a Ucrânia e vários outros temas críticos internacionais. Nessas questões, às vezes temos discordâncias, e esses assuntos podem lhes parecer muito distantes, mas eles afetam o seu dia-a-dia. Quando a França foi atingida pelos os atentados de 2015, eles haviam sido preparados na Síria, por djihadistas. Se amanhã o Irã tiver armas nucleares, estaremos diretamente envolvidos. Se o Oriente-Médio pegar fogo, seremos afetados. Se não conseguirmos resolver a situação na Líbia, continuaremos a sofrer coletivamente com o escândalo da imigração através do Mediterrâneo e com o desequilíbrio de toda uma parte da África. A respeito desses assuntos, eu quero que possamos alcançar acordos úteis, defender a paz, evitar escaladas de tensões e selar compromissos.

O segundo grande desafio deste G7 será a situação da economia mundial. Neste ponto também, isso lhes diz respeito diretamente. Precisamos nos esforçar para continuar crescendo e criar cada vez mais empregos e com isso um maior bem-estar em nossas sociedades. Por vocês, eu tenho dois objetivos, durante esses poucos dias: primeiro, convencer nossos parceiros de que as tensões, especialmente as comerciais, são ruins para todo mundo. Precisamos encontrar uma maneira de reverter essas escaladas, ou seja, precisamos estabilizar as coisas e evitar essa guerra comercial que está se espalhando por toda parte. Depois, creio que devamos também encontrar novos meios para conseguirmos promover um verdadeiro recomeço, isto é, renovar o crescimento. Vejam as taxas de juros, estão baixas no mundo inteiro. Vejam o crescimento, cada vez menor, principalmente na Europa. Temos que inovar e saber encontrar acordos para que os países que têm condições possam retomar o crescimento, voltar a investir e investir no futuro, na educação e na criação de empregos.

Em seguida, temos o terceiro assunto, que é como tornar este mundo mais habitável, como lutar contra as desigualdades. Este é o assunto que eu coloco no centro das atenções, neste G7. E eu quero que isto se traduza em ações concretas. Os chefes de Estado e de governo assumirão compromissos. E eu quis também incluir mais países, como a Índia, a Austrália, a África do Sul e o Chile, grandes potências democráticas que não fazem parte do G7, mas assumiram compromissos em relação a essas questões junto conosco. E nós incluímos também a sociedade civil, as empresas, as associações, os intelectuais e as ONGs, para realizarmos verdadeiras frentes de ação.

Nós temos pautas muito concretas, inclusive trabalhamos ontem, em Paris, na questão da luta contra as desigualdades entre mulheres e homens, com a adoção de novas leis e o compromisso mútuo de investir no empreendedorismo feminino na África. Teremos inciativas novas e fortes para a África, porque eu também quis trazer a África para o centro das atenções neste G7. A África é o nosso vizinho mais próximo, que faz parte do nosso quotidiano, agora e no futuro. Vamos, portanto, investir neste tema junto aos nossos parceiros africanos.

Teremos projetos de iniciativas na área digital, para proteger a informação e as democracias, nesta nova era digital, com a qual estão todos em contato, todos os dias.

Teremos também iniciativas para tornar nossa economia mais justa. Conseguimos envolver dezenas de grandes empresas e investidores, para que o objetivo das empresas não seja apenas alcançar lucros para os acionistas, mas que elas também se comprometam em seu cotidiano a trabalhar para que haja mais igualdade, para preservar a igualdade entre as mulheres e os homens ou para reconstruí-la, quando ela não estiver acontecendo, e assim melhorar a distribuição do valor agregado.

E o assunto principal, no coração deste G7 de luta contra as desigualdades, é o tema do clima. Neste ponto também vocês sabem que temos discordâncias com alguns países, e particularmente com os Estados-Unidos da América. Mas eu quero que este G7 seja útil, e portanto nós devemos responder ao chamado do oceano, que está atrás de mim, aqui em Biarritz, e ao chamado da floresta, que está pegando fogo hoje, na Amazônia, também de forma muito concreta. Então, nós vamos agir pela proteção dos oceanos, de maneira solene, e pela primeira vez, vamos nos comprometer: com as transportadoras marítimas, para que reduzam a velocidade, que é um dos meios mais eficientes para diminuir as emissões [de carbono], e é a primeira vez que fazemos isso, o que é uma verdadeira mudança; junto aos produtores de matérias têxteis – os maiores do mundo, que representam quase a metade da indústria – eles vão se comprometer, junto a nós, a reduzir as emissões e a produção de lixo: 30 % do lixo que se encontra nos oceanos vêm da indústria têxtil, 8 % das emissões de CO2 do mundo vêm da indústria têxtil. Isto é mais que todos os voos internacionais e os transportes marítimos, juntos. Pela primeira vez, eles vão se comprometer a atuar neste sentido, com datas e objetivos. Nós vamos também trabalhar em prol da biodiversidade. E o chamado da floresta vem da Amazônia, a Amazônia que é um bem comum. É um tema que afeta a todos nós. Sem dúvida, afeta ainda mais a França do que outros países ao redor desta mesa, pois somos amazônicos: a Guiana fica na Amazônia. Portanto, no que se refere à Amazônia, não faremos apenas um chamado, e sim uma mobilização de todas as potências que estão aqui, mas em parceria com os países da Amazônia, para obter investimentos. Primeiramente, para lutar contra os incêndios que estão acontecendo e para ajudar o Brasil e todos os outros países afetados; depois, para investir no reflorestamento em todas as partes; e para permitir que os povos indígenas, as ONGs e os habitantes locais possam desenvolver atividades apropriadas, preservando a floresta, da qual precisamos por ser um tesouro de biodiversidade e por ser um tesouro para o nosso clima, graças ao oxigênio que ela emite e ao carbono que captura.

Esses são os principais assuntos e questões. Nós não teremos êxito em todos os pontos, e não se zanguem comigo se não conseguirmos resolver tudo. A França faz o melhor possível, mas não podemos fazer tudo sozinhos. Quero que este G7 seja útil no que diz respeito a esses três assuntos – a segurança, a economia e a luta contra as desigualdades, e eu acredito que com isso podemos realizar um encontro crucial. Nosso mundo passa por um momento de mudanças e eu acho que a vocação de todos os franceses é de propor, inspirar e tentar reduzir as discordâncias, de não ceder às fraquezas dos tempos atuais e de manter o espirito de resistência que faz com que digamos “não é uma fatalidade”. Temos que lutar e chamar os outros a lutarem conosco, contra essas injustiças e esses absurdos. Então eu prometo, por vocês, fazer o máximo para que os meus colegas cheguem a um acordo a respeito desses assuntos, para que juntos possamos mudar as coisas.

Eu sei que alguns não concordam conosco e organizam cúpulas alternativas. Eu quero ouvir também o que eles dizem, assim como escutei hoje de manhã as propostas apresentadas pelas cidades e departamentos da região. Eu quero pedir que trabalhemos com calma, buscando a concórdia. Temos alguns desacordos e às vezes temos casos caricaturais, mas eu acho que os nossos maiores desafios, que são o clima, a biodiversidade, a transformação tecnológica, as preocupações em nossa sociedade, a luta contra as desigualdades, a insegurança no mundo inteiro, nós só poderemos resolver agindo juntos e nos reconciliando cada vez mais. Eu realmente peço calma e prometo que procurarei defender os seus pontos de vista ao redor desta mesa também.

Caros compatriotas, isto é o que eu queria dizer a vocês hoje, eu me comprometo a vir prestar contas sobre o que conseguirmos e o que não conseguirmos alcançar durante esses dois dias. Quero dizer também que apresentarei a vocês um resumo dos resultados na segunda-feira à tarde.

Finalmente, quero agradecer à cidade de Biarritz, aos seus moradores e a todos os nossos compatriotas que estão por aqui passando férias. Sei que esta reunião perturbou a cidade. Isto é normal, pois é necessário um dispositivo de segurança especial para podermos receber adequadamente os dirigentes e o mundo todo, a quem sou muito grato. Quero dizer também que o que nós estamos fazendo é muito importante e que isso terá retornos positivos para o nosso país, para o País Basco e para a cidade de Biarritz, porque vamos mostrar ao mundo todo a beleza desta paisagem, a qualidade do nosso acolhimento, nossas tradições e maneiras de fazer as coisas, todos os encantos da França, dos quais podemos nos orgulhar. Com vocês, estou orgulhoso de receber este encontro do G7 aqui na França, em Biarritz, no País Basco, na região da Nova-Aquitânia. Terei muito orgulho também de fazer o máximo por vocês e de vir prestar contas regularmente. Somos nós que temos que fazê-lo, e o faremos juntos. Muito obrigado. Viva a República e viva a França!

publié le 27/08/2019

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